Locus Criticus

Nº 6: A lealdade da Bezerra (I) (1º trimestre 2010)

por el 27 de Xaneiro de 2010, arquivado en Airas Perez Vuitoron

Comezamos o novo ano propondo unha reflexión sobre unha cantiga de Airas Perez Vuitoron moi coñecida e citada, que se presenta problemática nalgúns pasos. Trátase da famosa sátira política contra os alcaides que traizoaron o rei Sancho II entregando os castelos ao conde de Boloña, o futuro Afonso III. Unha composición importante, como o demostra o feito de que foi editada, entre outros, polos autores das tres edicións colectivas clásicas: Dna. Carolina Michaëlis, José Joaquim Nunes e Manuel Rodrigues Lapa.

Como se dixo, o texto presenta máis dun paso conflitivo, mais centrarémonos polo de agora nun deles, e formularémolo brevemente.

Este primeiro locus criticus atópase no dístico introdutorio da cantiga B 1477, V 1088 (Lapa 78; LP 16,1). Quen non coñece estes versos da edición ‘vulgata’ de Lapa?:

A lealdade da Bezerra pela beira muito anda,/ben é que a nostra vendamos, pois que no-lo Papa manda.

Vexamos o que nos ofrecen os manuscritos:

Imaxe de B

Imaxe de B

Imaxe de V

Imaxe de V

Lapa segue a C. Michaëlis na emenda do v. 2, pois non lle atopan sentido ao texto transmitido polos apógrafos, mais a súa versión diverxe o suficiente da lección de B -único manuscrito que nos transmitiu estes versos de encabezamento da cantiga, pois non foron copiados en V, cuxo copista se limitou a escribir as dúas primeiras grafías seguidas de varios puntos- como para deter a nosa análise sobre ela.

A propia Michaëlis introduciu outra emenda no v. 1, onde leu : *dos Bezerras*.

Graça Videira Lopes (2003), pola súa parte, introduce no primeiro verso unha variante textual (*da* por *aa*) sobre o texto de Lapa, o que cambia tamén substancialmente o significado do verso, e unha mudanza importante na prosodia, ao darlle un ton exclamativo: A lealdade aa Bezerra pela beira muito anda! /Bem é que a nostra vendamos, pois que no-lo Papa manda.

Tamén neste caso a lectura diverxe da versión do ms. Ademais da mudanza citada, xustificada pola confusión relativamente frecuente de *a* por *d*, omite o *q* presente en B no v. 1, aínda que admite a posibilidade de mantelo, e tamén adopta a corrección de Michaëlis no v. 2: *vendamos*.

Velaquí algunhas das cuestións que se nos presentan: É preciso alterar a versión do manuscrito ou esta pode dar sentido? É preciso prescindir de *q* no v. 1? Que se le no v. 2 en B, onde os editores manteñen a lectura conxectural de Michaëlis *vendamos*? Pode haber outra posibilidade de emenda máis axustada desde o punto de vista paleográfico?

2 comentarios para esta entrada:
  1. Rip Cohen

    1) No, we should not change *da* to *aa*. There is no metrical justification, since *aa* would be two syllables anyway.

    2) Yes, we should cut *g’* (not *q’*). It is unmetrical and senseless. (Note Colocci’s cross to the right, which can indicate an error or corruption).

    3) The abbreviation that looks like *nostra* I would read as *nossa*, against Lapa. Such abbreviations often go back to the Latin ones, but the forms are unlikely to be anything but Romance.

    4) *vendamos* for *denbam9*: The recurrence of forms of *vender* in the text appears to justify the emendation. Lacking any better proposal, we should accept *vendamos* as highly probable, if not certain.

  2. Martinho Montero Santalha~

    Colo a seguir a parte substancial do texto dedicado a esta cantiga na minha tese de doutoramento sobre as rimas trovadorescas, onde proponho uma nova leitura para o dístico inicial (que creio deve considerar-se refrão): [José-Martinho MONTERO SANTALHA], As rimas da poesia trovadoresca galego-portuguesa: catálogo e análise, Universidade da Corunha, Faculdade de Filologia, 2000, 3 volumes, 1796 pp., pp. 673-677.
    Na composição predomina o tom irónico (como também na outra cantiga que trata sobre o mesmo assunto: a de Diego Pecelho): é sabido que a ironia e o humor constituem muitas vezes o último consolo que fica aos vencidos…

    Cant. 1497 [= Tav 16,1]: Airas Pêrez Vuitorom «A lealdad’ é bezerra que pela beira muito_anda» (Ba 1477, V [1088]) eR (r)
    Para esta cantiga dou uma leitura que em alguns pontos difere da habitual.
    Antes de mais, assumo que o dístico inicial é, na realidade, um refrão, que portanto deve repetir-se depois de todas as estrofes . Nos mss. não se indica a repetição do refrão: só aparece no começo . Esta falta de repetição do refrão depois das estrofes, assim nesta como noutras cantigas profanas que possuem refrão inicial, explica-se talvez pela escassa aparição do refrão inicial na nossa poesia trovadoresca profana (o contrário do que acontece nas CSM, como é sabido): esses poucos casos deveram de produzir certa desorientação nos copistas . Mas a estrutura geral dessas cantigas sugere que tais versos iniciais estão destinados a desempenhar a função habitual do refrão: de modo similar ao que sucede nas CSM, o refrão inicial estabelece de entrada uma afirmação de carácter geral que logo vai ser desenvolvida com a narração do caso concreto visado pela cantiga, de modo que a insistente repetição desse princípio de ordem geral depois de cada estrofe joga um papel medular na estruturação da composição. Por vezes o mesmo esquema de rimas confirma essa repetição, mas não sempre (como no caso presente, em que as rimas do refrão não ocorrem nos versos das estrofes).
    Ao considerar de refrão a cantiga, a numeração dos versos resulta, na minha edição, distinta da usual.

    Por outra parte, a leitura que dou ao refrão é, como já se pode ver no incipit, também diferente da comummente adoptada. A edição que se vem dando do verso inicial (“A lealdade da Bezerra pela Beira muito anda”) apresenta a dificuldade de que desfaz a cesura regular da cantiga em hemistíquios de 7′ sílabas métricas (isto é, de 8 sílabas gramaticais). De resto, essa leitura prescinde do que existente no ms. (onde se lê para esse verso A lealdade da bezeira q’ / Pela beira muyto anda)

    No segundo verso (que se edita habitualmente “ben é que a nostra vendamos, pois que no-lo Papa manda”) a leitura “nostra vendamos” é infundada. O ms. parece oferecer efectivamente nrã, que é abreviatura latina medieval para nostra, mas na nossa língua não existe uma forma nostra . Ademais, se admitirmos aqui essa estranha forma nostra, ver-nos-emos obrigados, para manter a medida do verso, a fazer sinalefa entre que e a (“bem é que_a nostra vendamos, pois que no-l’ o papa manda”), o que vai contra a prática habitual dos trovadores.

    Também vendamos é interpretação hipotética, pois o que está no ms. é denbamos: vistos os erros comuns dos copistas coloccianos, não é difícil ver aí tenhamos .
    Depois disso resultará também fácil descobrir que a lição manuscrita nrã deve de estar por : nr por m aparece outras vezes nos códices coloccianos . Leremos, pois, mantenhamos.

    Como se pode ver, ademais, escrevo com minúsculas bezerra e beira. O autor refere-se, directamente, à bezerra animal, que anda muito pela beira (do curral ou do terreno ou do rio) quando está encerrada. Evidentemente, num segundo plano, metafórico (e escarninho), o trovador está aqui jogando com o valor equívoco destas duas palavras, que se estão referindo, nesse segundo plano, a Soeiro Bezerra e à região portuguesa da Beira (onde se deu a entrega dos castelos a Afonso III). O verbo mantenhamos prossegue esse equívoco, pois por uma parte eram expressões comuns “mante~er lealdade” ou “mante~er fidelidade” e similares, e, por outra parte, seria já então –como é hoje– expressão usual “mante~er a bezerra (ou qualquer outra cabeça de gado)”, neste caso bezerra com o duplo sentido (directo e metafórico) que acabamos de ver.

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