Locus Criticus

Nº 3: Non me posso pagar tanto (I) (Setembro 2009)

por el 8 de Setembro de 2009, arquivado en Alfonso X, Números recentes

A cantiga de Afonso X cuxo incipit encabeza esta nova entrada foi considerada de xeito unánime pola crítica, desde os seus inicios, como unha das obras cimeiras da lírica medieval peninsular. A temática, o ritmo, a métrica, a riqueza léxica, a sutileza retórica, todo é salientábel nesta composición. Mais esa unanimidade, como se sabe, desaparece e polarízase cando se trata de interpretar o texto.

Propoñemos, pois, actualizar un debate iniciado hai xa máis de cen anos, que perdurou ao longo de todo o século XX e no que aínda hoxe en día se manteñen opinións moi diverxentes.

Partiremos do texto da edición de Lapa (CEM), conscientes da necesaria revisión de varios loci critici que, espallados por toda a cantiga, non nos impiden podérmonos facer cunha idea cabal do sentido literal do conxunto e tomar esta versión como base para o debate. As cuestións ecdóticas aludidas serán tratadas en sucesivas entradas.

Velaquí a versión de Lapa:

  Non me posso pagar tanto
do canto
das aves, nen de seu son,
nen d’ amor nen de mixon
5 nen d’ armas -ca ei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas son,
-come dun bon galeon,
que mi alongue muit’ aginha
10 deste demo da campinha,
u os alacrães son;
ca dentro no coraçon
senti deles a espinha!
 
E juro par Deus lo santo
15 que manto
non tragerei nen granhon,
nen terrei d’ amor razon
nen d’ armas, por que quebranto
e chanto
20 ven delas toda sazon;
mais tragerei un dormon,
e irei pela marinha
vendend’ azeit’ e farinha;
e fugirei do poçon
25 do alacran, ca eu non
lhi sei outra meezinha.
  Nen de lançar a tavolado
pagado
non sõo, se Deus m’ ampar,
30 aqui, nen de bafordar;
e andar de noute armado,
sen grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
35 que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m’ ôi-mais guardar
do alacran, e tornar
ao que me foi primeiro.
 
40 E direi-vos un recado:
pecado
nunca me pod’ enganar
que me faça já falar
en armas, ca non m’ é dado
45 (doado
m’é de as eu razõar,
pois las non ei a provar);
ante quer’ andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
50 algũa terra buscar,
u me non possan culpar
alacran negro nen veiro.
  (Lapa, CEM, nº 10)

Os eixes da polémica poderían resumirse nas seguintes cuestións:

  • Estamos perante unha cantiga de escarnio ou trátase dun sirventés moral?
  • Podemos identificar a voz poética coa do propio rei Afonso X? En que medida?

Non podemos expor aquí, por extenso, as diversas interpretacións que se sucederon ao longo do tempo; limitarémonos a anotar os argumentos fundamentais en que cada crítico basea a súa interpretación.

C. Michaëlis interpretou o texto como unha cantiga de escarnio e na nº V das súas Randglossen, [empregamos a tradución ao portugués: Glosas Marginais ao Cancioneiro Medieval Português, (Yara Frateschi Vieira et alii, Eds., Coimbra, 2004)], afirma que “Afonso X fala na primeira pessoa, mas evidentemente em nome e com o espírito de outrem, cujas confissões, talvez ouvidas casualmente, poderiam tê-lo divertido”.

C. de Lollis, contemporáneo de Michaëlis, criticou a interpretación desta -que ela sempre defendería- e propuxo unha lectura autobiográfica na que a desilusión e o desexo de renuncia presentes no poema non son poeticamente finxidos senón que obedecen a un sentimento persoal do propio rei. (“Per una canzone di Alfonso X”, en Studi di Filologia Romanza, VIII, 1901, pp. 380-386).

M. Rodrigues Lapa (Cantigas d’escarnho e de mal dizer, nº 10) extremará esta idea de que na composición se poden “adivinhar os verdadeiros sentimentos do autor”, de xeito que nesta cantiga “o pobre rei atraiçoado pela família e pelos nobres, desafoga o seu queixume e exprime nela uma necesidade imperiosa de evasão, que o distanciasse daquela rede de intrigas à sua volta”.

Lanciani e Tavani (As cantigas de escarnio, 1995: 145 e ss.) alertan sobre o perigo de “considerar que un poeta -medieval ou moderno- expresa espontánea e sinceramente os seus sentimentos” e inciden na “necesidade de avaliar os textos poéticos segundo os parámetros estéticos adecuados ó tempo e ó lugar da composición”. Poñen de manifesto, ademais, que a cantiga alfonsí presenta referencias intertextuais evidentes, que nos remontan ao exordio das cansós provenzais, aínda que desde unha perspectiva negativa; así como o desexo de abandonar as armas ‘porque son moi perigosas’, que contrasta ironicamente con outras composicións súas en que satiriza sarcasticamente a covardía dos seus cabaleiros; ou o motivo do mar, que consideran “unha referencia explícita á oposición entre o propio Afonso e, precisamente, o mar, sobre a que se artella a famosa cantiga de Pai Gomez Charinho” De quantas cousas eno mundo son.

Graça Videira Lopes (A sátira nos cancioneiros medievais galego-portugueses, 1994. pp. 157 e ss.) recupera e matiza a hipótese de C. Michaëlis, considerando que nesta cantiga de Afonso X se dá un caso de transferencia de voz, de xeito que o rei, que fala aparentemente en primeira persoa, en realidade está a falar por boca doutro personaxe. O argumento principal que manexa G. Videira baséase no feito de que o propio rei, noutra composición satírica, pon en boca dun non identificado Don Foan, cabaleiro que fuxira da guerra, palabras que “são estranhamente semelhantes ao universo deste sirventês, na sua clara recusa da guerra: (…) e diss’en essa ora: (…) E ao Demo vou acomendar prez deste mundo, e armas, e lidar, / ca non é jog’o de que omen chora” (LP 18, 13).  Segundo esta autora o halo romántico que a lectura autobiográfica permite, así como a forza da cantiga, non se verían diminuídos de vez, “sobretudo se entendermos a relação de certa forma mimética que o seu autor mantém com esse outro a quem aqui dá (daria) voz” (p. 159).

4 comentarios para esta entrada:
  1. Rip Cohen

    It seems to me that the genre of this poem is a renunciation/farewell (renunciation not just of love, but of everything associated with the speaker’s past life). The beginning can be compared to

    Me nec femina nec puer
    iam nec spes animi credula mutui
    nec certare iuuat mero
    nec uincire nouis tempora floribus.

    “I no longer feel any delight, neither in woman nor boy, nor in the credulous expectation of a reciprocal passion, nor in drinking contests, nor in binding my temples with fresh flowers”

    (Horace, Odes, 4.1. 30-33)

    But this goes much further back.

    *Dilectus ex iambis et elegis graecis* , ed. M.L. West (Oxon. 1980), p. 2 (adespota elegiaca 8):

    *ou moi et’ eukeladon humnon melei oud’ eti molpes*

    “No longer do I care for sweet-sounding songs or for dance”

    Look at the beginning of Propertius, 3.21:

    Magnum iter ad doctas proficisci cogor Athenas
    ut me longa gravi solvat amore via.

    “I am forced to set out on a huge voyage to learned Athens,
    so the long trip will release me from a crushing passion”

    There must be many parallels. The message is: “I am sick of it all, I’ve had it, I’m leaving to find a land where I can just survive without all this crap”.

    (The persona who speaks is just that: a persona. That holds for any poem, even an autobiographical one.)

  2. Graça Videira Lopes

    Parabéns à equipa e saudações muito cordiais a todos os intervenientes neste excelente lugar de debate, simples, imaginativo, eficaz e, a todos os títulos, muito útil.
    Li todas as interessantes intervenções sobre as anteriores cantigas e também eu terei, eventualmente, algo a dizer sobre elas. Mas, como fui citada particularmente nesta, acrescentarei apenas um pequeno comentário:

    A questão que foi lançada a propósito desta magnífica cantiga de Afonso X é sensivelmente diferente das anteriores, já que, independentemente dos seus pequenos problemas textuais, é no terreno (extra-textual)da interpretação que o debate é agora colocado. E, nesta medida, se a discussão nem por isso é menos interessante, o mais provável é não chegarmos nunca a um consenso generalizado. Dou, pois, a minha simples opinião, e sobre os dois aspectos colocados em cima da mesa.

    1. Não creio que a questão da classificação sirventês/escárnio faça grande sentido. Esta distinção, com o sentido que lhe damos hoje em dia, não parece, de facto, ter tido qualquer valor efectivo no espaço galego-português medieval. Na verdade, e tanto quanto podemos perceber das raríssimas alusões ao termo “sirventês”, os trovadores e jograis, se não o desconhecem, limitam-se a entendê-lo como a designação provençal para as cantigas satíricas, sem lhe atribuírem qualquer valor de género, sub-género ou forma especificos.
    Sendo certo que isto não invalida o sentido actual e perfeitamente legítimo da distinção, também penso, pois, que os seus termos não devem ser entendidos como absolutamente incompatíveis. Assim, e apesar da minha interpretação ir mais no sentido de ser esta uma cantiga, não auto-biográfica, mas endereçada para o exterior (ancorada em circunstâncias específicas ou mesmo individualmente dirigida), sempre a ela me referi utilizando o termo “sirventês”, termo que me parece útil aqui, exactamente para sinalizar a sua muito óbvia “diferença”. Mas sem deixar de considerar que o termo é “nosso” e não do seu autor. Ou seja, que integra já o nosso processo interpretativo moderno.

    2. Sempre achei a interpretação de D. Carolina mais de acordo com o contexto histórico medieval, não só da produção das cantigas, mas do lugar social das vozes que nelas cantam. E a figura do “pobre rei atraiçoado” desabafando as suas mágoas numa cantiga, proposta por Rodrigues Lapa, nunca me pareceu muito convincente. O que diz o Prof. Tavani e a Profª Lanciani parece-me perfeitamente justificado.
    Da minha parte, acrescentei ao debate duas pequenas achegas:
    a) a coincidência, que não me parece insignificante, entre o que diz a voz desta cantiga e as palavras que o seu autor põe na boca de um cavaleiro não identificado em LP 18, 13 (para seguir a citação supra). Parece-me ser este, na verdade, um ponto não negligenciável para a discussão. Também esse cavaleiro, muito claramente satirizado ao longo da dita cantiga, diz coisas muito interessantes (pelo menos para nós) quando o rei, no final, lhe dá voz.

    b) a ideia de que não será incompatível, pelo menos do meu ponto de vista, a voz crítica contra os que “não se (podem) pagar tanto do canto… e das armas” com uma certa empatia com essas mesmas posições. Afonso X é um magnífico poeta - e custa-me sempre entender por que razão teremos de dar a estes poetas medievais um tratamento mais simplista e primário do que aquele que dispensamos aos autores contemporâneos. Neste sentido, a chamada de atenção para a longa tradição deste “topus”, que Rip Cohen faz no comentário anterior, bem como para a necessidade de enterdermos a voz como “persona”, também é perfeitamente justa.

    Em resumo, a minha interpretação vai no sentido de ser esta uma cantiga que expõe um “discurso”, “discurso” esse que, sendo eventualmente alheio, é também uma reflexão que se propõe sobre a guerra e o seu sentido (ou falta dele). E mesmo que, por qualquer feliz mas improvável acaso, viéssemos a dispor de dados mais concretos sobre as exactas circunstâncias da produção desta cantiga, esses dados não poderiam nunca apagar o que me parece ser o seu núcleo central, ou seja a sua manifesta (e estou em crer que muito voluntária) ambiguidade estrutural .

  3. Ângela Correia

    Parece-me que pelo menos o artigo “Non me posso pagar tanto d’Alphonse le Savant et la transformation des modèles littéraires” de Maria Luisa Meneghetti (Actes du XVIIIe Congrès International de Linguistique et de Philologie Romanes,Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 1988, p. 279-288) tem de ser tido em conta.

    Outras reflexões são referidas aqui: http://findarticles.com/p/articles/mi_6748/is_15/ai_n28759246/?tag=content;col1

    Embora eu não tenha feito a devida análise aturada de toda a bibliografia, também me parece indispensável ter em conta a bibliografia sobre a cultura da nobreza (em geral, e em especial a que circundou Alfonso X) e a mentalidade da mesma. Igualmente me parece importante ter em consideração textos representantes da mesma época onde eventualmente se manifeste a forma como a nobreza via a actividade do comércio.

    Em resumo, este texto não é um locus criticus… é um mundo inteiro.

  4. Rip Cohen

    “Um mundo inteiro” writes Ângela Correia, and I agree.
    We are out of the realm of textual criticism per se and into the land of interpretation (though there is a relation!). Let’s have a closer look at what Tom Hart writes: «Poetry was considered a branch of epideictic rhetoric: every poem is a speech of either praise or blame. The cantiga de escarnho fits perfectly into this scheme. So do the cantiga de amor and the cantiga de amigo; the subject of both is praise of love, […]».

    This is wrong. It is impossible to reduce the cantiga d’amor to “praise poetry” and it makes even less sense with the cantiga d’amigo. What does make sense is to call CEM “blame poetry” (equivalent to ancient Greek psogoi, or to the “iambi” of Catullus, since the object is to mock or openly insult an individual, normally named. (Hence, *not* “satire” –an inappropriate designation, since satire — in the strict sense of the word — does not target named individuals.) But I agree with what Isocrates is quoted as saying: «Isocrates in omni genere inesse laudem ac vituperationem existimavit.» (Quintilian, Institutio Oratoria 3.4.4) “Isocrates thought that praise and blame are inherent in every kind [of speech].» I would gloss this: there is a positive or a negative charge in everything we say.

    The speaker wants to find “another land”, or, we might say, another world:

    «Alter, si possis, orbis habendus erit»

    «You should live in another world, if only you could»
    (Ovid, Remedia Amoris, v. 630)

    And there again, the flight is from the beloved. Similarly in Bernart de Ventadorn:

    «en issilh, no sai on.»

    «In exile, I don’t know where».

    Afonso’s poem is a *farewell with blame* (psogos) for all that the speaker rejects and plans to leave behind. The big difference between it and the examples I have cited is that in Afonso’s text it is not primarily love that is being left behind. We could say this another way: This is an inverted speech of a departing traveler: instead of praising what he leaves, our persona speaks ill of all of it.

    I see no mystery here.

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