Locus Criticus

Juião Bolseiro

Nº 7: Juião, quero contigo fazer (2º trimestre 2010)

por en Feb.26, 2010, arquivado en Juião Bolseiro, Mem Rodrigues Tenoiro, Números recentes

No congresso da AHLM de 2007, em Cáceres, apresentei uma comunicação sobre a tenção Juião, quero contigo fazer, entre Juião Bolseiro e Mem Rodrigues Tenoiro. Nela procurei defender uma interpretação desta cantiga diferente da literal. As duas findas apresentam-se contudo corrompidas nos cancioneiros e não quis publicar a minha interpretação sem antes ter uma opinião mais firme sobre a fixação do texto. É precisamente este o locus criticus que venho neste forum pôr em discussão.

Dada a necessidade de apoiar a minha interpretação do texto numa edição, optei pela de Álvaro Silva (tese de mestrado orientada por Elsa Gonçalves) que, na altura do congresso de Cáceres, me pareceu melhor, com excepção de dois versos das findas precisamente: o v. 31 e parte do v. 34 cuja fixação feita respectivamente por Reali e por Lapa me pareceu melhor. Eis, pois, o texto em que baseei o meu trabalho interpretativo:

juliao

Eis o texto das findas nos dois testemunhos: B403 [bis] e V14.

juliaoa juliaob

As diferenças entre B e V (muito pouco habituais) indicam que a leitura do antecedente comum seria difícil neste lugar.

Diante de texto tão deturpado, as leituras dos editores divergem, como se esperaria:

Michaëlis (1904):
-Juyão, pois, te quer[o] eu filhar
pelos cabelos, e quer’ arrastar;
e que dos couces te pes [eu farei].

-Meen Rodriguiz, se m’eu respons(?) dar,
ou se me cal(o), ou se vus dẽostar’,
ay, trovador, já vus non amarei.

Reali (1964):
-Juyão, pois, que t’eu filhar
pelos cabelos, e que t’arrastrar,
que dos couces te pês eu creerey.

-Meen Rodríguiz, se m’eu trosquiar,
ou se me fano, ou se me crestar,
ay, trovador, já vos non torvarey.

Lapa (1970):
-Juião, pois, que t’eu [for] filhar
pelos cabelos, e que t’arrastrar,
que dos couces te pês eu creerei.

-Meen Rodríguez, se m’eu trosquiar,
ou se me fano, ou se m’e trescar,
ai, trobador, já vos non travarei.

Álvaro Silva (1993):
-Juião, pois que t’eu filhar
pelos cabelos, e que t’arrastrar
o que dos couces te pe[n]se crerei.

-Meen Rodríguiz, se m’eu trosquiar
ou se me fano, ou se me crestar
ai, travador, já vos non travarei.

São estes os dados da questão que aqui deixo na esperança de que, em conjunto, possamos melhorar a fixação destas duas findas.

Ângela Correia
23 de Fevereiro de 2010

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